18.6.09

Teatrinho

Nos idos de 1991, na escola municipal Conde Pereira Carneiro, em São Paulo, estava eu na sétima série do ensino fundamental e uma dos trabalhos de Educação Artística era montar uma peça de teatro.

Nosso grupo era formado por 7 alunos: 5 meninas e 2 meninos. Eu fui o responsável por escrever a peça, que deveria ser encenada em até 15 minutos.

Infelizmente, o texto original se perdeu. Talvez até esteja guardado em alguma caixa de papelão empoeirada no sótão da casa do meu pai, pois minha mãe sempre foi de guardar essas velharias, mas como não pretendo procurar o original farei o possível pra reproduzi-lo com a maior fidelidade que minha memória permite:


Título: Julieu e Rometa em: O sequestro da princesa Penélope por Ali Babaca

Personagens:
Princesa Penélope
Amada
Julieu
Rometa
Ali Babaca
Severina

Época: Em algum "lugar" do passado
Local: Um reino. Há muito "tempo"

PRIMEIRO ATO

(Abrem-se as cortinas e estão em cena a Princesa Penélope e sua criada, Amada, conversando durante a festa de 15 anos da princesa. Suas vozes não são ouvidas. Ouve-se uma leve música de fundo e a voz do narrador.)

CENA I

Narrador: No Reino Rosado, havia uma princesa muito bela. Seu nome era Penélope, filha única do rei. Era dia do seu aniversário de 15 anos. A festa estava muito animada e todos estavam felizes, mas havia um bandido com planos para estragar a festa...

CENA II

(Ali Babaca entra em cena a passos largos, na ponta dos pés, caminha até a princesa, cobre sua boca com uma das mãos, agarra sua cintura com a outra mão e a arrasta para fora do palco.)

Narrador: É Ali Babaca, o terrível ladrão! Ali Babaca seqüestra a Princesa e foge com ela do palácio.

(Ali Babaca e Princesa Penélope saem de cena.)

Amada: Oh não! A princesa foi seqüestrada! E agora, quem poderá nos defender? (breve pausa enquanto olha pra platéia com um sorriso irônico) Já sei! (empolgada) vou pedir ajuda ao valente Julieu. (Sai de cena correndo, enquanto as cortinas são fechadas)

SEGUNDO ATO

(Abrem-se as cortinas e estão em cena Rometa no alto de uma escada (servindo de “torre”) e Julieu próximo a escada com um dos joelhos no chão e a outra perna dobrada num ângulo de 90 graus, com a planta do pé no chão. Ambos fazem caras e trejeitos de tímidos apaixonados.)

CENA I

Jilueu: Ó Rometa...

Rometa: (Breve pausa) Ó Julieu...

Jilueu: (Breve pausa) Ó Rometa...

Rometa: (Breve pausa) Ó Julieu...

Jilueu: (Breve pausa) Ó Rometa...

Rometa: (Breve pausa) Ó Julieu...

CENA II

(Amada entra em cena correndo, esbaforida.)

Amada: Julieu! Julieu! (gritando) Precisamos de sua ajuda!

Rometa: Quem tá precisando de ajuda aqui sou eu, esse cara não sai disso. (Desalentada) Vamos logo pro que interessa Julieu! (dando ordem)

Julieu: (Levanta e abre os braços) Que é isso Rometa? (Indignado) Mulher sem romantismo é fogo... (resignado)

Amada: Dá pra parar vocês dois? O negócio é sério! (Brava)

(Rometa desce da escada enquanto Julieu fala)

Julieu: Diga lá Amada... O quê a aflige?

Rometa: (Já ao lado de Julieu) Amada? Que história de amada é essa?

Amada: Relaxa Rometa... Amada é meu nome. Sou prima do Julieu. (Impaciente) O lance é que o Ali Babaca seqüestrou a Princesa Penélope

Julieu: E o quico?

Rometa: (Dá um tapa no braço de Julieu) Como assim e o quico? Quem é o herói por aqui? (Indignada)

(Julieu massageia o braço)

Amada: Pois é Julieu, você tem que salvar a Princesa!

Julieu: Tenho? (espantado)

Rometa: Julieu! (Brava e com as mãos na cintura)

Julieu: Ai meus ovos! Tá bom, tá bom... Bora lá... (sem muita vontade, sai de cena “se arrastando”)

(Amada e Rometa seguem Julieu)

Rometa: Esses homens...

Amada: Humpf! (Balança a cabeça – negação)

(Fecham-se as cortinas)

TERCEIRO ATO

(Abrem-se as cortinas e estão em cena Princesa Penélope no canto, “amarrada” com papel higiênico nos pulsos e nos tornozelos, e Ali Babaca, usando vestimenta característica árabe. Turbante inclusive.)

CENA I

Ali Babaca: (andando de um lado para outro com a mão no queixo) 500 mangos de resgate? Hmmm... Não! É pedir muito...

Princesa Penélope: Muito? Isso é merreca! Eu valho muito mais que isso!

Ali Babaca: Silêncio! (irritado) Milão! Vou pedir milão! (soca o ar)

Princesa Penélope: Pobre é uma desgraça mesmo...

Ali Babaca: Silêncio! Ô mulher chata...

CENA II

(Entram em cena Julieu, Rometa e Amada (nesta ordem). Ali Babaca de costas para os três.)

Julieu: (Com as mãos na cintura e peito inflado) Acabou a brincadeira Ali Babaca! Solte a Princesa! (com voz firme)

Amada: Pobre Princesa. (Com as mãos no rosto, espantada) Toda amarrada...

(Ali Babaca gira nos calcanhares e olha assustado para os três)

Ali Babaca: M-mas... (gaguejando) Como vocês acharam meu esconderijo?

Rometa: Ligamos pra 102... Idéia minha! (animada)

(Ali Babaca dá um tapa na testa)

Princesa Penélope: Além de pobre é burro! (balançando a cabeça em negação)

Julieu: (com voz firme) Muito bem Ali Babaca, você e seus 40 ladrões vão pra cadeia! (curioso – procurando com a cabeça) Por falar nisso, cadê eles?

Ali Babaca: Pois é... (frustrado) Se mandaram! Sabe como é, essa crise... O mercado de assaltos tava meio fraco... Pegaram todo o tesouro que havíamos roubado nos últimos anos e abriram uma lojinha na 25 de Março.

Julieu: Rapaz... Mas que coisa hein! (solidário) E nem te propuseram uma sociedade? Ou um emprego, sei lá...

Princesa Penélope: Ô Julieu! Qual é? Veio aqui pra quê afinal? (inconformada) Desce o cacete nesse mané logo!

(Julieu e Ali Babaca olham surpresos para a Princesa, ficam em posição de luta. Ambos giram em posição de luta durante alguns segundos. Aos gritos, se atracam agarrando um o pescoço do outro. A luta dura mais alguns segundos)

CENA III

(Entra em cena Severina, com vestimentas típicas nordestinas, peixeira na mão, pisando duro - Severina tem sotaque nordestino)

Severina: Vamos parando com essa algazarra!

(Todos olham para Severina. Julieu e Ali Babaca permanecem um com a mão no pescoço do outro. Ali Babaca faz cara de assustado)

Ali Babaca: Caiu a casa (Falando baixo, para Julieu)

Severina: Ô Ali! Que negócio é esse seqüestrar a princesa? Já não falei que não quero mais saber dessa história de bandidagem?

(Ali Babaca e Julieu se soltam. Ali Babaca caminha vagarosamente em direção à Severina em passos pequenos. Todos olham a cena)

Ali Babaca: Calma amorzinho... Não é nada disso que você está pensando... (com medo)

Severina: Já coloquei aqueles 40 vagabundos que ficavam nessa caverna pra correr que era pra você não ficar atentado a voltar pra essa vida ingrata e você me apronta uma dessa, Ali !?!? Será que vou ter que te dar uma surra com vara de marmelo, homem?

(Julieu, Rometa, Amada e Princesa Panélope riem)

Ali Babaca: Ô meu bem... Precisa não...

Severina: Passa pra casa! (incisiva) Lá a gente conversa direito. Vou pôr você na linha nem que seja na base da pancada.

(Ali Babaca sai de cena acompanhado de Severina, logo atrás)

CENA IV

(Julieu desamarra a Princesa que dá um empurrão em Julieu e corre para abraçar Amada)

Princesa Penélope: Se não fosse você eu estaria ferrada! (Alegre)

Julieu: Como assim? E o herói aqui?

(Amada e Princesa Penélope dão as mãos e saem de cena)

CENA V

Julieu: Meio esquisitinhas essas duas hein?!?

Rometa: Você ainda é o meu herói, Julieu! (caminha em direção a Julieu e o abraça)

Julieu: Ó rometa...

(Rometa solta julieu e agarra-se em seu braço)

Rometa: Pode para com esse negócio de "Ó..." Vamos pro rala e rola!

Julieu: É hoje! (empolgado)

(Caminham para fora do palco enquanto fecham-se as cortinas)

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9.6.09

Essa Internet e seus internautas maravilhosos

De acordo com o que apurei, os fatos ocorreram da seguinte maneira:

1 - Ela tentou acessar sua conta no Orkut e, sabe-se lá por qual motivo, não conseguiu.
2 - Essa salsinha (®Cardoso) fez essa busca no Google. Pelo jeito o Google deve ter implementado buscas por telepatia...
3 - O primeiro link dos resultados foi esse post, de 11.11.2003, deste humilde blog.
4 - Sem hesitar, ela deixa um comentário:

Célia disse...

Estou bloqueada desde ontem.
Quero meu orkut como era antes.
Como faço para faar com o administrador do site no Brasil?
8/6/09 20:51

5 - Como não sou muito bom em lidar com salsinhas, aguardarei ansiosamente um comentário dela em http://www.carloscardoso.com/, o mestre em relacionamento humano-salsinha. O Cardoso que me perdoe, mas tive que fazer isso:

Eduardo Junqueira Ferreira disse...

Olá Célia,

Muito pertinente seu comentário nesse post de 2003. Farei o possível para auxiliá-la:

Uma das opções seria você encomendar de algum traficante de orgãos (talvez na 25 de março em SP ou no Saara no RJ você encontre algum) um cérebro novo, pois o seu parece não estar funcionando corretamente. Após isso, tente digitar a senha correta do seu login no Orkut.

Outra opção é pedir ao Marty McFly o telefone do Dr. Emmet Brown, ligar para ele e pedir o DeLorean emprestado, aí você volta pra "ontem" e, voilá, seu Orkut está como era antes. Apesar que nesse caso não seria mais antes, seria agora... Sei lá, viagem no tempo é um troço meio complicado mesmo.

Agora, se você quer REALMENTE resolver o seu problema, mande um e-mail ao Cardoso(http://www.carloscardoso.com/), tenho CERTEZA que ele te dará uma resposta BEM MELHOR que a minha.

Boa sorte!
9/6/09 10:23

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20.5.09

Elevador

Eu aguardava pacientemente no saguão do prédio enquanto o elevador descia os 22 andares até o térreo. Eram 3 elevadores naquele edifício, mas como de costume apenas um deles estava funcionando naquele momento. Apesar disso, eu era o único a esperar o elevador, mesmo sendo um horário em que geralmente o tráfego de pessoas no edifício é intenso.

Na verdade, eu não era exatamente o único ali. Havia um senhor de terno e chapéu pretos, encostado na parede próximo a um dos elevadores que não estava em funcionamento, o mais distante do único elevador a funcionar. Talvez estivesse esperando por alguém, pensei, e não dei muita atenção.

Alguns minutos depois, o elevador chegou ao térreo. Para meu espanto, a porta abriu e não havia ninguém dentro. Encaminhei-me para o elevador e foi então que ele disse, em um tom de voz calmo, porém firme:


-- Ei rapaz!

Instintivamente, segurei a porta do elevador e olhei ao redor. Imaginando que alguem estivesse pedindo para que eu segurasse o elevador. Não vi ninguém, além do senhor vestido de preto.

-- Estou cansado disso. - Disse ele

Ainda sem entender, olhei em sua direção, abri o meu melhor sorriso tentando ser simpático e disse:

-- O senhor vai subir?
-- Não, meu rapaz. Não vou a lugar algum. Mas estou cansado de ser ignorado. - Disse ele, caminhando na minha direção.
-- Desculpe-me... Não entendi. - Respondi, meio desconfiado e já sem o sorriso estampado no rosto.
-- Eu disse que estou cansado de ser ignorado. Tudo bem que eu estou aqui, mas mesmo se eu não estivesse, ninguém se importaria.

Pensei em simplesmente entrar no elevador e apertar o botão para fechar a porta, mas ele já estava próximo demais e conseguiria interromper o fechamento da porta do elevador. Se ele fosse algum tipo de maníaco homicida era melhor não irritá-lo, e sim tentar apelar pra psicologia.

-- Err... Bom dia! - Disse eu, estampando novamente o sorriso, desta vez um pouco amarelo - Estava com a cabeça na lua. Que falta de educação a minha. Deveria tê-lo cumprimentado.
-- Não é disso que falo, rapaz. Estou dizendo que ninguém respeita os avisos. Me desdobro para conseguir estar em tantos lugares ao mesmo tempo, mas as pessoas não dão a mínima.

Ainda sem entender, percebi que não havia mais saída. Restava-me ouvir o que ele tinha pra dizer, deixá-lo desabafar e torcer para que eu saísse vivo dessa loucura.

-- Veja, mandei até fazer essas plaquinhas, mas ninguém a entende. - Continuou o cara do chapéu - Ninguém verifica se estou aqui.
-- É complicado, não é mesmo? - Perguntei, meio que pisando em ovos.
-- Por favor, apenas me diga que daqui em diante você irá verificar, sempre. - Disse ele num misto de ordem e súplica.
-- Mas... Mas é c-claro senhor! Pode contar comigo! - Gaguejei.
-- Muito obrigado, meu jovem... - Ele estendeu a mão para mim e perguntou - Qual é o seu nome, rapaz?
-- Eduardo, senhor. Pode ter certeza que irei verificar sempre! - Ainda sem ter certeza do quê.
-- Obrigado, Eduardo. Fico muito feliz com sua colaboração. Bom dia para você.

Ele voltou para o canto onde estava, cruzou os braços, olhou em minha direção e sorriu. Entrei no elevador, apertei o botão do 8° andar e ainda meio sem entender, fiquei olhando a porta do elevador se fechar diante de mim. Segundos antes da porta se fechar por completo, num impulso apertei o botão de abrir a porta, coloquei a cabeça para fora do elevador e perguntei ao senhor de preto: -- Desculpe-me senhor, mas qual é mesmo o seu nome?

Ele novamente sorriu e disse: -- Meu nome é Mesmostóles, meu jovem. Mas prefiro que me chamem de Mesmo.

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19.5.09

Moto

Desde criança sou apaixonado por motos. Talvez por ter crescido em meio a elas. Meu pai sempre foi motociclista e meu irmão, cinco anos mais velho que eu, ainda adolescente ganhou uma "cinquentinha" dos meus pais.

Aos finais de semana adorava ir com meu pai à padaria, de moto, só para segurar o guidão e sentir a sensação do vento na cara.

Quando eu tinha meus dez ou onze anos, lembro que um dos amigos do meu irmão tinha uma CB400. Moto linda, potente, 400cc. Um canhão! Lembro que certa vez ele parou com aquela máquina próximo de nós e pude ouvir a moto "estalando", comportamento normal, já que o calor expande o metal e ao desligar a moto, com o resfriamento, ouve-se os estalos característicos da contração do metal. Mas para mim, ainda menino, era como se a moto tivesse vida, nervosa por estar parada, desejando rodar sem parar. Nesse dia pensei comigo mesmo: "Será que um dia terei uma moto grande assim, que estala?"

O tempo passou, meu pai teve sua CB400 II, ainda mais bonita que a do amigo do meu irmão, além de outras motos.


Nos mudamos para São Paulo e a tal cinquentinha acabou virando mais minha que do meu irmão, que usava bastante a XL250 do meu pai.

Sempre que podia, meu irmão me levava para dar umas voltas de moto e deixava que eu pilotasse um pouco. A sensação de trocar as marchas era maravilhosa, coisa que eu não experimentava com a minha cinquentinha.

O tempo passou, meu irmão comprou uma CB450 dourada. Motão! Tive uma oportunidade de pilotar aquela moto, voltando com meu irmão de um dos treinos de Fórmula 1 em Interlagos. Não acreditei quando meu irmão disse que eu poderia voltar pra casa pilotando. Estava nas nuvens. Infelizmente, semanas depois a moto foi roubada.

Anos depois, aos 14 anos, sofri o acidente que quase tirou minha vida. Minha paixão quase me matara. Imprudência minha, é fato. Como a grande maioria dos acidentes de moto, o motociclista age de forma imprudente e causa o acidente.

Meu irmão, nessa época, tinha uma RD350, chamada por alguns de viúva negra por ser uma moto muito perigosa.

Depois do meu acidente, meu pai tomou uma decisão que acredito tenha sido muito difícil para ele, principalmente por ser apaixonado por motos. Vendeu sua XL e fez de tudo para que meu irmão vendesse sua RD. Uma decisão e tanto. Difícil saber se ela foi tomada com a razão ou com a emoção.

Durante alguns anos, meus pais não podiam ver-me próximo a uma moto que já sentiam-se incomodados. Mas eu, escondido, vez ou outra pegava motos de amigos emprestadas para dar umas voltas.

Cresci e tornei-me um adulto com um sonho: ter uma moto. Sonho, pois para mim era algo intangível. Objetivos tive e tenho vários, e busco realizá-los, mas ter uma moto era um sonho, algo que parecia-me muito distante, quase impossível. Fosse por falta de dinheiro devido a outras prioridades, pela restrição que minha família impunha ou simplesmente por ter MEDO.

Minha mãe, principal opositora a qualquer membro da família andar de moto novamente, faleceu. Casei-me e contei à minha esposa a respeito do meu sonho, que por saber da minha história, engrossou o coro da minha família e foi contra.

Novamente o tempo passou e, dois anos depois de casado, disse a minha esposa que estava na hora de eu realizar o meu sonho. Para minha surpresa ela não só concordou como participou na escolha da moto a ser comprada. Alguns meses depois, sentado em frente ao vendedor da concessionária, assinando os documentos da compra da moto, um frio percorreu minha espinha.

Eu estava morrendo de medo. Meu sonho era algo distante, que as pessoas ao meu redor ajudavam a manter desta maneira, e eu ainda podia usar a desculpa de não comprar uma moto apenas para não magoar aqueles que gostam de mim, mas minha esposa jogou essa desculpa por água abaixo.

Minha decisão havia sido tomada. Durante uma semana, tempo que a concessionária levou para entregar a moto, eu sentia um nó no estômago a cada vez que pensava que em pouco tempo estaria sentado novamente num veículo automotor de duas rodas. E que desta vez seria MEU.

Ao deitar, ficava realizando mentalmente o trajeto da concessionária até minha casa, que momento teria que trocar as marchas, qual freio usar, como fazer determinada curva, como desviar de um buraco, etc., até finalmente pegar no sono. Era a realização de um sonho, mas era também sofrimento. Um sofrimento gostoso, de certo modo.

Em alguns momentos, cheguei a torcer para que tivesse algum problema na documentação, ou que a moto tivesse ficado indisponível, ou qualquer outra razão que fizesse o negócio ser desfeito.

Como pode uma decisão como essas ser boa e ruim ao mesmo tempo? Meu lado racional fazia-me lembrar o quão perigoso é uma moto no trânsito de São Paulo, mas também me mostrava que o risco depende mais de mim que dos outros, pois como diria o ditado: "Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém". Já meu lado emocional era mais histérico... Ao mesmo tempo em que berrava ao meus ouvidos de que eu era um louco, insano, que não havia conseguido se matar na primeira vez e por isso iria tentar novamente, me enchia de elogios, parabenizando-me por ter tornado um sonho em realidade.

De fato, o sonho realizou-se de maneira mais que espetacular. Hoje tenho em minha garagem uma Harley-Davidson. Não aquelas máquinas enormes e caras que vemos nos filmes americanos. Bem mais modesta e barata, mas ainda assim uma Harley.

E ainda por cima, ela estala!

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21.4.09

uma imagem vale mais que mil palavras...

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7.4.09

O Google emburrece as pessoas?

Tá certo, talvez o título deste post seja um pouco agressivo demais. Talvez o Google não esteja emburrecendo as pessoas, mas será que não está as tornando mais preguiçosas e fazendo com que guardem cada vez menos coisas na memória?

Já escrevi por aqui a respeito do que acredito ser um comportamento normal do nosso cérebro, guardando apenas as informações mais relevantes enquanto descarta as menos importantes de nossa memória, porém acredito que o Google talvez esteja fazendo com que esqueçamos coisas que também são relevantes.

Já está se tornando comum as pessoas responderem a uma pergunta com outra: "já viu no Google?". Já existem até expressões para isso: "Google it", "Googlar", etc. Frequentemente as pessoas procuram algo no Google, obtém a informação que precisam e, semanas depois, já não se lembram mais daquilo. Quando precisam da informação novamente, simplesmente recorrem ao Google sem ao menos tentar resgatar aquela informação na memória.

É provado cientificamente que o nosso cérebro precisa ser exercitado para que não atrofie (Li isso em algum lugar, mas não me lembro agora, procura no Google...) e desde que "googlar" passou a fazer parte de nossa rotina, estamos exercitando cada vez menos nosso cérebro.

Meu sobrinho de 10 anos disse-me outro dia, por MSN, que estava fazendo um trabalho pra escola e que estava pesquisando algumas informações na internet. Cerca de 15 minutos depois, despediu-se de mim dizendo que já tinha acabado o trabalho, pois havia achado um texto no Google.

Quando eu tinha a idade dele, passava horas procurando nas enciclopédias as informações que eu queria, copiava aquilo que precisava pro meu caderno e depois passava a limpo na folha de papel almaço. Sim, papel almaço... Não sabe o que é isso??? Procura no Google...

Hoje, em 15 minutos meu sobrinho faz uma busca no Google, lê meia dúzia de linhas, marca o texto, tecla CTRL+C, abre o Word, tecla CTRL+V, escreve mais meia dúzia de linhas para a conclusão, escreve seu nome, salva o arquivo e manda pra professora, por e-mail...

Enciclopédia? Já era... Li outro dia uma matéria informando que a Microsoft decidiu abandonar de vez a Encarta. Nem enciclopédia digital temos mais. Não lembro onde li isso, mas acho que você já sabe o que fazer para achar essa reportagem, não ?

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6.4.09

Catatônico

Parte IV

Marli acompanhou o pai na ambulância ao lado do bombeiro que seguia medindo os sinais vitais de seu Azevedo. Um dos bombeiros tomou a direção da ambulância enquanto o outro, no banco do passageiro, ligava o rádio para acompanhar o jogo da seleção.

"Luiz Fabiano recebe na entrada da área, corta pra direita, chutou... NA TRAVE !!!!" -- Gritou o locutor, entusiasmado.

-- Olha aí rapaz... Dois a zero já... Pra quem tava tomando sufoco, até que tá bom pacas. -- Disse o bombeiro que havia ligado o rádio

Seu Azevedo arregalou os olhos e murmurou algo. Marli aos prantos fez menção em abraçar o pai, mas foi impedida pelo bombeiro que a informou que deveria manter-se calma para que ele pudesse cuidar de seu Azevedo.

-- Mas ele tentou falar alguma coisa! Ele tentou falar alguma coisa!
-- Dona Marli, fique calma! -- Disse com voz firme, o bombeiro -- A senhora precisa manter a calma...

O bombeiro reclinou-se em direção a seu Azevedo e ouviu seu murmúrio: "aumenta..."

-- Aumenta!?!? -- Disse o bombeiro
-- Quer ouvir o jogo Matias? -- Perguntou o motorista
-- Jogo? Que jogo?
-- Ué? Você pediu pra aumentar...
-- É isso !!!! Aumenta aí! Ele quer ouvir o jogo...

Chegaram ao hospital e seu Azevedo já apresentava significativa melhora. O jogo estava no fim e o placar continuava dois a zero. OS bombeiros explicaram ao neuro-cirurgião de plantão qual era o cenário. De início, pensaram se tratar de um caso de síndrome do enclausuramento, porém chegaram a conclusão que a teoria do bombeiro Matias podia fazer sentido, apesar de não ter embasamento científico: Seu Azevedo havia ficado catatônico por causa da seleção.

Colocaram seu Azevedo em um quarto da UTI para que ficasse em constante observação e trouxeram uma TV para que pudessem testar a tese do bombeiro. Durante meses seu Azevedo ficou em estado catatônico, melhorando a cada vez que a seleção ganhava e piorando a cada derrota ou empate com seleções inexpressivas.

Certo dia veio a bomba na mídia: Dunga havia sido retirado do comando da seleção brasileira. Nesse dia, ao receber a notícia, seu Azevedo apresentou uma melhora significativa. Dois dias depois já estava conversando normalmente e havia saído da UTI, sendo transferido para um quarto. Rumores apontavam para uma volta de Felipão à seleção e seu Azevedo recebeu alta.

Um mês após alta, seu Azevedo já estava de volta ao seu apartamento. Sua vida havia voltado à rotina de sempre.

Foi então que em uma segunda-feira, assistindo ao Jornal Nacional, seu Azevedo teve um infarto fulminante que o matou. Na TV William Bonner acabara de dizer: "A CBF acaba de anunciar o novo técnico da seleção brasileira. No próximo amistoso, contra a forte seleção do Suriname, o Brasil será comandado por Renato Gaúcho."

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29.3.09

Stock car

Comentário publicado por mim no site do Globo Esporte:

Que falta de respeito hein, dona rede globo.

Anunciam a corrida às 11h e só futsal rolando. Ao final do futsal passam um compacto PORCO das primeiras voltas e acham que está tudo bem.

Nada contra o futsal, mas se a corrida é as 11h e a rede globo não tem COMPETENCIA para adequar corretamente sua grade ou informar os telespectadores sobre os horários de sua programação, deixe outras emissoras mais competentes fazerem o trabalho.

O pior é entrar no site pra confirmar se não estava ficando louco e teria confundido o horário e vejo que na internet estão transmitindo ao vivo. PERDI A CORRIDA, dona globo. Custava dizer, na transmissão do futsal, que poderiamos assistir AO VIVO a largada pela internet?

Não precisa , né? Vocês são os líderes, o império... Fazem o que querem e os telespectadores que se danem... É uma pena.

A nós, fãs do automobilismo, cabe apenas a resignação.


UPDATE: Apagaram meu comentário e bloquearam meu IP... Além de tudo são BUNDÕES!

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26.3.09

Catatônico

Parte III

Marcos chegou ao apartamento no mesmo instante que a equipe do Resgate -- Logo após falar com Marli, ligou para o Resgate, informando a situação.

Os bombeiros do Resgate entraram no apartamento e iniciaram os procedimentos. Marcos veio logo após e correu ao encontro do filho, que chorava compulsivamente.

-- Qual o nome dele? -Perguntou um dos bombeiros.
-- Antonio Azevedo martins. -- Disseram em uníssono Marli e seu Azevedo. Obviamente, os bombeiros escutaram apenas a voz de Marli. -- Mas ele gosta que o chamem só de Azevedo.
-- Idade?
-- 78... Não, 77!
-- Pô Marli! Errar a idade do pai??? -- Disse seu Azevedo.
-- Alguma doença? Alergia? Algum histórico médico?
-- Não, não... É a primeira vez que isso acontece. Ele tá paralisado. Isso é um derrame?
-- Ainda não sabemos senhora. Vamos executar os procedimentos e encaminhá-lo ao hospital. Fique tranquila. Vai dar tudo certo.

Felipe, abraçado ao pai, soluçava. O pai tentava acalmá-lo, dizendo que tudo ia ficar bem, que não era nada grave.

Ao executarem os procedimentos de primeiros socorros, pos bombeiros perceberam que a pressão de seu Azevedo estava bastante alta e o ritmo cardíaco bastante acelerado. Suas pupilas respondiam normalmente aos estímulos, mas seus olhos pareciam vidrados.

Na televisão, era dado início ao segundo tempo do jogo. Seu Azevedo gritava em silêncio para que o bombeiro saísse da frente dele, afinal, por mais que estivesse numa situação bastante incomum, jogo do Brasil é jogo do Brasil e nada é mais importante que isso.

Aos dois minutos e meio do segundo tempo, Robinho dá uma de suas pedaladas e, meio aos trancos e barrancos, empurra a bola pra dentro do gol. Como o bombeiro havia saído de sua frente para preparar a maca, seu Azevedo pode ver a jogada e o gol... Sorriu.

Marcos, que com olhos cheios de lágrimas olhava para seu Azevedo com consternação, gritou num misto de alegria e desespero: -- ELE SORRIU !!! ELE SORRIU !!!!

Os bombeiros imediatamente se voltaram para seu Azevedo e constataram que realmente havia um sorriso em sua face. Mediram novamente a pressão e o ritmo cardíaco e, para surpresa de todos, tanto a pressão quanto seu coração haviam voltado ao normal.

Enquanto dois bombeiros retiravam seu Azevedo da poltrona e o colocavam na maca, um terceiro bombeiro continuava monitorando seus sinais vitais. Percebeu que ao ser colocado na maca, novamente a pressão foi às alturas, acompanhada do coração a mil por hora.

Enquanto levavam seu Azevedo para o hospital, o Brasil fazia seu segundo gol com um chute certeiro de Ronaldinho Gaúcho, no ângulo.

Continua...

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24.3.09

Catatônico

Parte II

Já com olhos cheios de lágrimas, Felipe sacou seu celular do bolso e ligou para a mãe.

-- Mãe, sobe aqui! Rápido!! Acho que o vô... -- Sentiu um nó na garganta. Não conseguiu pronunciar a palavra "morreu".

Marli, percebendo o desespero na voz do filho, subiu correndo pelas escadas. Apesar de já ter passado dos quarenta e estar um pouco fora de forma, em menos de dois minutos subiu os quatro lances de escada pulando os degraus, enquanto ligava para o marido.

Marcos era casado com Marli há 19 anos e por ter perdido o pai quando era ainda bebê, tinha em seu Azevedo o pai que nunca tivera. Estava no trânsito, voltando para casa quando seu celular tocou. Ao atender, ouviu a voz ofegante de sua esposa, dizendo que tinha algo de errado com seu Azevedo.

-- Ele tá respirando?
-- Não sei... O Felipe tá com ele no apartamento. Estou subindo pra ver o que aconteceu, mas pela voz do Felipe a coisa não parece boa.
-- Fica calma... Tô indo direto praí!

Apesar da situação em que se encontrava, seu Azevedo estava calmo. Ainda não entendia direito o que estava acontecendo. A impressão que tinha é que seu corpo estava funcionando normalmente. Sentia seu braço se movendo, mas podia ver pela visão periférica que eles continuavam imóveis.

-- Fica calmo Lipe, tá tudo bem com o vô... -- Disse seu Azevedo ao ver o neto ligando para a mãe.
-- Vô, fala comigo! Mamãe já tá vindo!

Poucos minutos depois, Marli irrompe pelo apartamento e corre em direção ao pai.

-- Pai! PAI!!! -- Gritava Marli.
-- O que aconteceu, Felipe?
-- Não sei mãe, quando entrei ele estava aí, desse jeitinho mesmo. Falei com ele mas ele não respondeu. O vô morreu mãe? Ele morreu?

Marli segurou o pulso de seu Azevedo e percebeu que havia pulso. seu Azevedo estava vivo.

-- Ô Marli, que escândalo hein? Tá tudo bem comigo... Por que vocês não param de agir como loucos e me escutam? Devo ter dado um mal jeito na coluna e não consigo me mexer, mas estou bem. Já, já isso passa...
-- Pai, o senhor tá me escutando? Vai dar tudo certo...
-- Claro que estou escutando, mas parece que vocês não estão me escutando...

Foi então que a ficha caiu. Seu Azevedo não conseguia falar. Se falava, ninguém ouvia.

-- Xiii... A coisa tá feia. -- Pensou seu Azevedo.

Continua...

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Catatônico

Parte I

O jogo estava para começar. Seu Azevedo encheu o potinho de amendoim, pegou uma cerveja na geladeira e foi para a sala. Ajeitou-se em sua poltrona de frente para a televisão, abriu a lata de cerveja fazendo aquele som característico, tomou um gole e abocanhou um punhado de amendoins.

O amistoso entre Brasil e Venezuela nunca foi um clássico, mas para seu Azevedo qualquer jogo envolvendo a seleção Brasileira é um clássico. Desde 58 não perde um só jogo do Brasil. Mesmo na época de Lazaroni seguia firme, assistindo aos jogos.

O jogo estava esquisito... A Venezuela era só ataque! A seleção canarinho não havia passado do meio-campo. Seu Azevedo foi ficando cada vez mais nervoso e, a cada passe errado do Brasil ou chute ao gol da Venezuela, parecia que ia ter um troço. Seu Azevedo estava muito tenso. Seu corpo estava rijo.

Finalmente o juiz aponta o centro do gramado e o primeiro tempo chega ao fim, no exato momento em que seu neto de 17 anos, Felipe, abria a porta do apartamento -- Desde que sua esposa falecera, sua filha, Marli, fez uma cópia da chave do apartamento e vinha visitá-lo frequentemente.

-- Fala aí vô, beleza? Tá vendo esse jogo mixuruca é?
-- Ô Netão!!! Você acredita que o Brasil tá tomando um sufoco? - Respondeu seu Azevedo.

Felipe aproximou-se da poltrona e, tocando o ombro direito de seu Azevedo, perguntou:

-- Tá dormindo vô ? Sou eu, Felipe... A mãe tá lá embaixo esperando. Ela quer que o senhor assista ao segundo tempo lá em casa e aproveite pra comer o salmãozinho que ela preparou.
-- Que dormindo o quê muleque, tá surdo? -- Disse seu Azevedo, tentando girar a cabeça em direção ao neto.

Mas para a surpesa de Seu Azevedo, seu corpo não reagiu ao comando do seu cérebro. Sua mão direita permanecia apertando a lata de cerveja vazia e a mão esquerda apertando com força o braço da poltrona. Sua cabeça permanecia virada em direção a televisão e nem mesmo seus olhos se moveram em direção ao neto.

Felipe, assustado, agachou-se em frente ao avô e, olhando diretamente nos olhos de seu Azevedo, perguntou se ele estava sentindo alguma coisa.

-- Vô, o senhor tá bem? o que aconteceu? Tô falando com o senhor, vô... RESPONDE!

Continua...

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19.3.09

Reunião (não) é só diversão

José Firmino sempre foi um cara de visão. Empreendedor nato, vislumbrava oportunidades de negócio em toda e qualquer situação em que via-se envolvido.

Certa vez, visitando uma empresa na qual prestava serviço de consultoria em problem fixing issue without parameters and high knowledge for advanced corrections in short time, serviço este que por muitos era chamado de gambiarra mas que para Zé firmino era fonte de renda, percebeu um novo filão que até então não havia sido explorado corretamente.

Zé Firmino percebeu que todas as reuniões naquela empresa duravam horas. Muito era discutido, pouco era definido e, pior, dias depois todos lembravam-se de que ninguém havia elaborado a pauta ou, quiçá, a ata da referida reunião.

Foi então que do alto de sua perspicácia e senso de oportunidade Zé Firmino expandiu seus negócios e passou a prover consultoria em meeting planning and documentation for high participative and focused deliberations issues, coisa que as pessoas sem visão de negócio e baixa auto-estima chamariam de profissional ateiro.

Com o sucesso incontestável de todas suas empreitadas anteriores, Zé firmino acreditava que esta seria mais uma fonte inesgotável de renda a um ótimo custo x benefício... Ledo engano!

Sua primeira experiência neste nova função foi deseperadora. Zé Firmino foi convocado para preparar e documentar uma reunião envolvendo um gerente de projetos prolixo, um gerente de desenvolvimento Linux, daqueles... bem, daqueles gerentes de desenvolvimento Linux - o título fala por si só -, uma programadora de computador neurótica, um analista de sistemas mudo e um DBA das cavernas, desses que perambula pela empresa com um tacape na mão.

O gerente de projetos pediu a palavra para fazer a introdução da reunião, discursando por aproximadamente 45 minutos, sendo interrompido de tempos em tempos pelos gritos agúdos da programadora, enquanto o gerente de desenvolvimento dormia e o DBA das cavernas enxugava os olhos (sim, os olhos!) com um rolo de papel higiêncio; não um pedaço de papel higiênico, mas o próprio rolo. O mudo? Bem, o que se espera de um mudo além do silêncio?

Zé Firmino saiu da reunião com 2 barquinhos de papel, um chapéu de jornal, uma réplica da Enterprise feita com post-its em escala 12:1 e nenhuma ata de reunião.

Pediu desculpas ao CIO da empresa, cancelou todos os contratos que possuía e passou a dedicar-se a nova oportunidade de negócio que acabara de vislumbrar: Professor de origami.

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