19.5.09

Moto

Desde criança sou apaixonado por motos. Talvez por ter crescido em meio a elas. Meu pai sempre foi motociclista e meu irmão, cinco anos mais velho que eu, ainda adolescente ganhou uma "cinquentinha" dos meus pais.

Aos finais de semana adorava ir com meu pai à padaria, de moto, só para segurar o guidão e sentir a sensação do vento na cara.

Quando eu tinha meus dez ou onze anos, lembro que um dos amigos do meu irmão tinha uma CB400. Moto linda, potente, 400cc. Um canhão! Lembro que certa vez ele parou com aquela máquina próximo de nós e pude ouvir a moto "estalando", comportamento normal, já que o calor expande o metal e ao desligar a moto, com o resfriamento, ouve-se os estalos característicos da contração do metal. Mas para mim, ainda menino, era como se a moto tivesse vida, nervosa por estar parada, desejando rodar sem parar. Nesse dia pensei comigo mesmo: "Será que um dia terei uma moto grande assim, que estala?"

O tempo passou, meu pai teve sua CB400 II, ainda mais bonita que a do amigo do meu irmão, além de outras motos.


Nos mudamos para São Paulo e a tal cinquentinha acabou virando mais minha que do meu irmão, que usava bastante a XL250 do meu pai.

Sempre que podia, meu irmão me levava para dar umas voltas de moto e deixava que eu pilotasse um pouco. A sensação de trocar as marchas era maravilhosa, coisa que eu não experimentava com a minha cinquentinha.

O tempo passou, meu irmão comprou uma CB450 dourada. Motão! Tive uma oportunidade de pilotar aquela moto, voltando com meu irmão de um dos treinos de Fórmula 1 em Interlagos. Não acreditei quando meu irmão disse que eu poderia voltar pra casa pilotando. Estava nas nuvens. Infelizmente, semanas depois a moto foi roubada.

Anos depois, aos 14 anos, sofri o acidente que quase tirou minha vida. Minha paixão quase me matara. Imprudência minha, é fato. Como a grande maioria dos acidentes de moto, o motociclista age de forma imprudente e causa o acidente.

Meu irmão, nessa época, tinha uma RD350, chamada por alguns de viúva negra por ser uma moto muito perigosa.

Depois do meu acidente, meu pai tomou uma decisão que acredito tenha sido muito difícil para ele, principalmente por ser apaixonado por motos. Vendeu sua XL e fez de tudo para que meu irmão vendesse sua RD. Uma decisão e tanto. Difícil saber se ela foi tomada com a razão ou com a emoção.

Durante alguns anos, meus pais não podiam ver-me próximo a uma moto que já sentiam-se incomodados. Mas eu, escondido, vez ou outra pegava motos de amigos emprestadas para dar umas voltas.

Cresci e tornei-me um adulto com um sonho: ter uma moto. Sonho, pois para mim era algo intangível. Objetivos tive e tenho vários, e busco realizá-los, mas ter uma moto era um sonho, algo que parecia-me muito distante, quase impossível. Fosse por falta de dinheiro devido a outras prioridades, pela restrição que minha família impunha ou simplesmente por ter MEDO.

Minha mãe, principal opositora a qualquer membro da família andar de moto novamente, faleceu. Casei-me e contei à minha esposa a respeito do meu sonho, que por saber da minha história, engrossou o coro da minha família e foi contra.

Novamente o tempo passou e, dois anos depois de casado, disse a minha esposa que estava na hora de eu realizar o meu sonho. Para minha surpresa ela não só concordou como participou na escolha da moto a ser comprada. Alguns meses depois, sentado em frente ao vendedor da concessionária, assinando os documentos da compra da moto, um frio percorreu minha espinha.

Eu estava morrendo de medo. Meu sonho era algo distante, que as pessoas ao meu redor ajudavam a manter desta maneira, e eu ainda podia usar a desculpa de não comprar uma moto apenas para não magoar aqueles que gostam de mim, mas minha esposa jogou essa desculpa por água abaixo.

Minha decisão havia sido tomada. Durante uma semana, tempo que a concessionária levou para entregar a moto, eu sentia um nó no estômago a cada vez que pensava que em pouco tempo estaria sentado novamente num veículo automotor de duas rodas. E que desta vez seria MEU.

Ao deitar, ficava realizando mentalmente o trajeto da concessionária até minha casa, que momento teria que trocar as marchas, qual freio usar, como fazer determinada curva, como desviar de um buraco, etc., até finalmente pegar no sono. Era a realização de um sonho, mas era também sofrimento. Um sofrimento gostoso, de certo modo.

Em alguns momentos, cheguei a torcer para que tivesse algum problema na documentação, ou que a moto tivesse ficado indisponível, ou qualquer outra razão que fizesse o negócio ser desfeito.

Como pode uma decisão como essas ser boa e ruim ao mesmo tempo? Meu lado racional fazia-me lembrar o quão perigoso é uma moto no trânsito de São Paulo, mas também me mostrava que o risco depende mais de mim que dos outros, pois como diria o ditado: "Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém". Já meu lado emocional era mais histérico... Ao mesmo tempo em que berrava ao meus ouvidos de que eu era um louco, insano, que não havia conseguido se matar na primeira vez e por isso iria tentar novamente, me enchia de elogios, parabenizando-me por ter tornado um sonho em realidade.

De fato, o sonho realizou-se de maneira mais que espetacular. Hoje tenho em minha garagem uma Harley-Davidson. Não aquelas máquinas enormes e caras que vemos nos filmes americanos. Bem mais modesta e barata, mas ainda assim uma Harley.

E ainda por cima, ela estala!

2 comentários:

Anônimo disse...

Kra, entrei por acaso na sua pagina e li toda a história da sua volta ao mundo das duas rodas, achei muito legal. Estou realizando um sonho parecido mas ainda estou na faze do "ir me deitar e pensar no caminho para voltar com a nova criança".

Se cuida e espero que vc escute muitos estalos ainda!

Eduardo Junqueira Ferreira disse...

Seja bem vindo ao clube das duas rodas, caro amigo (não sei seu nome, você assinou como anônimo).

Como dizia um anuncio que vi uma vez: Andar de moto é uma terapia que ajuda a aliviar 40 horas de trabalho em apenas 40 minutos.

Boa sorte com sua motoca!

Grande abraço,
Edu